Existe um momento na história da gestão em que algo muda silenciosamente e depois se torna inevitável.
Foi assim com o SPED na contabilidade. Durante anos, muitas empresas acreditaram que se tratava apenas de mais uma obrigação burocrática. Até perceberem que, na verdade, o que estava acontecendo era uma transformação profunda na forma como as informações seriam monitoradas e auditadas.
Com a NR-1, algo muito parecido está acontecendo.
Muitas empresas ainda acreditam que estão apenas sendo obrigadas a produzir inventários e relatórios sobre riscos psicossociais. Mas o que realmente está surgindo é uma nova lógica de gestão: a capacidade de mensurar como o comportamento humano impacta diretamente a produtividade e os resultados do negócio.
Em 2025, a economia global perdeu mais de 1 trilhão de dólares em produtividade devido a problemas relacionados à saúde mental no trabalho.
Esse número não aparece nos balanços das empresas, mas aparece nos sintomas: metas mais difíceis de alcançar, equipes esgotadas e margens cada vez mais pressionadas.
Esse dado revela algo importante: saúde mental deixou de ser apenas um tema humano ou social. Tornou-se um tema econômico.
O problema é que, dentro das empresas, essa perda raramente aparece de forma clara. Ela não surge em relatórios financeiros, não aparece em dashboards de gestão e dificilmente é associada diretamente aos resultados do negócio.
Ainda assim, ela acontece todos os dias.
Quando um equipamento quebra, o impacto financeiro é imediato e mensurável. Quando uma máquina para, existe um número claro que representa aquela perda. Já quando uma pessoa está emocionalmente esgotada, o cenário é diferente. O colaborador continua indo trabalhar, continua participando das reuniões e continua entregando tarefas. Porém, sua capacidade produtiva está comprometida.
Esse fenômeno é conhecido como presenteísmo. O profissional está presente fisicamente, mas sua energia cognitiva e emocional não está disponível na mesma intensidade. O resultado é uma redução silenciosa da produtividade que raramente é capturada pelos indicadores tradicionais de gestão.
O equívoco na forma como muitas empresas estão enxergando a NR-1
Nas últimas semanas tenho conversado com gestores de diferentes empresas e setores. Muitas delas já sabem que a NR-1 passou a exigir a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Ainda assim, o que observo é uma interpretação bastante limitada da norma.
Em vários casos, a preocupação se resume a produzir documentos: inventários de risco, laudos e registros formais que comprovem algum tipo de adequação.
Mas essa interpretação ignora algo fundamental.
A NR-1 não surgiu para aumentar a burocracia das organizações. Ela surgiu para tornar visível algo que sempre impactou diretamente os resultados das empresas: o comportamento humano dentro do ambiente de trabalho.

O custo invisível que os gestores já estão pagando
Muitos líderes percebem que algo mudou dentro das organizações, mas têm dificuldade de identificar exatamente o que está acontecendo. Metas parecem mais difíceis de alcançar. Equipes parecem mais cansadas. Resultados exigem cada vez mais esforço.
Frequentemente essas mudanças são atribuídas ao mercado ou à economia. Porém, uma parte relevante desse impacto pode estar relacionada ao estado emocional das equipes.
Um colaborador que hoje entrega X de produtividade poderia, em condições adequadas, entregar X². Quando sinais de ansiedade, esgotamento ou início de burnout passam despercebidos, inicia-se um ciclo silencioso dentro da organização.
A falsa sensação de que isso é “mais uma obrigação”
Outro padrão observado nas conversas com gestores é a percepção de que a NR-1 representa apenas mais uma responsabilidade em agendas já sobrecarregadas.
Essa leitura parte de um pressuposto equivocado.
Quando os riscos psicossociais não são gerenciados, o gestor já lida diariamente com suas
consequências: conflitos internos, queda de engajamento, retrabalho, baixa produtividade e rotatividade de pessoas.
Ou seja, o problema já está presente na operação.
O custo real de substituir pessoas
Diversos estudos indicam que substituir um colaborador pode custar entre 50% e 200% do seu salário anual, considerando recrutamento, seleção, treinamento, adaptação e perda de conhecimento.
Isso mostra que investir em prevenção e monitoramento do ambiente organizacional não é apenas uma decisão de bem-estar. É também uma decisão econômica.
O que realmente muda com a NR-1
A chegada da NR-1 marca um ponto de inflexão importante na gestão das organizações brasileiras. Pela primeira vez, fatores psicossociais passam a exigir identificação estruturada e evidências de gestão.
Isso significa que temas antes tratados de forma intuitiva passam a entrar no campo da gestão baseada em dados.
A NR-1 não deve ser vista apenas como uma obrigação regulatória. Ela representa uma oportunidade para compreender algo que sempre existiu, mas raramente foi mensurado com precisão: o impacto do ambiente emocional sobre a produtividade e os resultados do negócio.
Ana Paula Probst – Economista | PMP | Founder e CEO da Beewell
FAQ:
O que a NR-1 exige das empresas em relação à saúde mental?
- A NR-1 passou a exigir que as empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo fatores como excesso de pressão, jornadas inadequadas, conflitos organizacionais e outros elementos que possam afetar a saúde mental dos colaboradores. A norma exige que esses riscos sejam identificados, registrados e acompanhados dentro do sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
- Riscos psicossociais são fatores presentes na organização do trabalho que podem afetar a saúde mental e emocional dos colaboradores. Entre os principais estão excesso de carga de trabalho, metas irrealistas, ambientes de alta pressão, conflitos constantes, falta de reconhecimento e baixa autonomia.
Como a saúde mental impacta a produtividade das empresas?
- Problemas de saúde mental impactam diretamente a produtividade por meio de fenômenos como presenteísmo e absenteísmo. No presenteísmo, o colaborador está presente fisicamente, mas com capacidade reduzida de concentração, energia e desempenho. Isso gera uma perda de produtividade silenciosa que muitas vezes não aparece nos indicadores tradicionais de gestão.
O que é presenteísmo no trabalho?
- Presenteísmo ocorre quando o colaborador está presente no ambiente de trabalho, mas não consegue desempenhar suas atividades com sua capacidade plena, geralmente devido a fatores como estresse, ansiedade, burnout ou outros problemas emocionais. Esse fenômeno pode gerar perdas significativas de produtividade para as empresas.
A NR-1 é apenas uma obrigação legal ou pode gerar benefícios para a empresa?
- Embora a NR-1 seja uma exigência regulatória, ela também representa uma oportunidade estratégica. Ao identificar e monitorar riscos psicossociais, as empresas passam a compreender melhor fatores que afetam o desempenho das equipes. Isso permite reduzir afastamentos, diminuir rotatividade e melhorar a produtividade organizacional.
Referências bibliográficas
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO); INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO).
Mental health at work: policy brief. Geneva: WHO, 2022. - HEMP, Paul. Presenteeism: At work—but out of it. Harvard Business Review, 2004.
- SOCIETY FOR HUMAN RESOURCE MANAGEMENT (SHRM). Human Capital Benchmarking
Report. Alexandria, VA, 2023. - DELOITTE. Mental health and employers: The case for investment. London: Deloitte Insights, 2022
